segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sufoco

Eis que de tanto reclamar as palavras cansadas viraram gente
Não o que se esperava, melhor.
Não o que se temia, pior.
Na calada da tarde fervida um desabafo em cumprimento
Será a cabeça em desvario ou os olhos mirando patifaria?
Nada que se pudesse pensar
Nada que se possa tragar
E meu pescoço roxo de tanto se afogar soluça para fora daqui
Por que teu nome não pertence a minha boca
O teu lugar não é lugar para festejar
É como eu sempre digo
Não se põe fogo onde não há palha para queimar
É como eu sempre ouço
Gatos baixam a cabeça por que não sabem cantar
Olá, Como estás?
Não que alguém precise saber
Texto sobre texto para ter o que falar
Desliguei o telefone para acompanhar os mudos
Ninguém soube me explicar



quarta-feira, 9 de julho de 2014



De olhos fechados
Mergulho campos flor de anis
Céu de chamas bruxuleantes
E o verde suave no encanto da bela tarde
Não se avista qualquer alma perdida
Quietude remexendo as folhas secas
Bem-que-te-vi assobiando perto dalí
Era rastro de sol na margem






quarta-feira, 2 de julho de 2014

Segredo

O ódio degelado em brasa é amor
Sê junto a mim a sublimação da tristeza
Mas não esqueça da partida
Pois o tempo que nos resta é motivo para o risco
E mesmo que me apeteça fugir não me percas de vista
Disparadas de tua boca
Palavras que me acodem de um pesadelo, suor salubre
Eu perpasso pelos teus dedos
No enlace de uma noite perdida
Trocas desarticuladas de "pré-textos"
Meu zelo por ti é carinho revelado no meu desejo
Desde o primeiro Beijo
A incerteza de se desfazer em nova medida
Acolhida em teus braços esqueço que o tempo passa
E a noite fica
Sentada. da tua janela vejo as cores da cidade
Folhas e luzes desbotadas nas frestas do sereno
E tu te aproximas em sussurrados passos
Surpreendes-me em calado segredo
Não quero mais do que teu corpo pleno


domingo, 18 de maio de 2014

"731"


Deliciar-se na poesia de corpus
Saciar o que lateja a escuridão
Se teus olhos não quiserem ouvir
Não te restará amor, nem desassossego
Não haverá safena que te retorne

Sussurros te lavam a carne insossa
Solúvel de rosa morta
São cordas que paralisam a roca
O telefone toca, é chegada a hora

Um demônio travestido de paraíso
Lamentos e sorrisos na casa de um menino
Um café esquecido na cafeteria
Cadeiras
Dançantes  e quase objetos
Nas paredes as confissões e os dejetos
Tudo o que se deseja e não quer ser

Cartas, poemas e cachaça
Ganha quem não quebrar a primeira taça
Paredes silenciosas, vizinhos impertinentes
A cidade dorme
Nada é aparente

Fim da partida
Infâncias, fanfarra e gritos
Velas, risadas e um bolo
Despedaçado como a vida
Dividido em um Gozo


*Impressões ao visitar a família Dirigível, da casa 731.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

A história

A frigidez do teu corpo resume o primeiro Ato
Um tato, a mão suja entre as tuas pernas
é o que te mantém nesse palco
Das tuas flores murchas restaram espinhos
Um corpo sozinho

Nunca esqueças, o povo observa a tua procissão
"Lá vem a santa do pau oco, ela veste ilusão"
O teu Auto descontente é texto sem intenção
Nobreza de uma noite
Efervescente crucificação

Não sinta pena de si mesma
"Cortem aquela cabeça"
Carência dissolvida na beira de muitas camas
Narrando ninguém acredita
Nessa breve contação
Essa é a história daquela moça
Que vivia de bajulação
Quem viu reza a lenda, quem ouviu não se contenta
Quem quiser que acredite, quem não gostou que se ausente.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Inacabado

Satisfatório 
quando a flecha acerta o centro
Eis-me aqui para desenterrar o teu desespero
Tuas máscaras não suportam a solidão, frágil rosto
Teu gozo é tão falso quanto o golpe do nobre moço
Levanta as saias e mostra para todos como sucede a tua vanglória 
Viveste poucos anos, mas já te chafurdas na lama
Melancólica lapidação, teu fim de linhas tortas é o clichê mais tragicômico que já escrevi.

Plágio

Fotocópia languida
De um branco preto despintado
Impressão barata
De um arco-íris desbotado
Um quadro monocromático

Existência ébria
Foco em desvario, um ser que mente
De imitação decadente
Vivendo um monodrama midiático
Uma dramaturgia trasladada

Melodia simplória
Soprano que desencanta
De falsetes multifacetados
Arruinando belas partituras
Uma fanfarra sem regente

Farsa andante
Coração carente
Nem todo dinheiro do mundo compra
Tua felicidade indecente


Elise Vasconcelos


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Friday night

O desejo que dissolve além das vias não é mais deleite
Sento desatinada em ferozes desilusões
Numa noite vazia, Sussurros e punhados de mentiras
O copo descansa sobre a mesa

Restaria, como no jogo, um único pavio aceso
Palavreado obsoleto e desmedidos toques sobre os anseios
Contra o muro o repouso emaranhado
Abraços languidos rumando portão adentro

Leito do avesso, livros e cadernetas
Relógio parado, Termômetro 37 e  1/2
Pedaços espalhados no gélido chão do quarto
Get Back
Working in Progress





quinta-feira, 6 de março de 2014

Vitalícios



No vão dessa terra estranha
Eu vi dezenas de corpos
Enfileirados e organizados por tamanho e amargura
Ninguém sabia o motivo, ninguém barganhara desculpas
Desse maldito lugar só se conhece as ofensas e calúnias

A serenidade está naquela taça de vinho
Próximo ao cigarro e à estante de livros
Roda cabeça pensante, bate coração atuante
Escutem os pedestres, as putas e os vigilantes

De que vale ter poucas moedas?
Pra que chorar e acender velas?
A loucura já passou da meia noite
Os sinos desdobram, não avisam, nem descordam

Subverter é a regra
Dessa estrada de mão dupla
A liberdade é utopia
Pra quem só fala e não escuta





Texto: Elise Vasconcelos

Maio - 2013

Vênus

Dream wolf
Fonte: http://www.moondance.org/2001/winter01/poetry/dream-wolf.jpg


Se esperasse o aconchego dos teus lábios, eu não estaria. A falta de ti é ânsia que alimenta o coração bilateral, o amor que eu não reconheço por mim. Nas encruzilhadas da matéria que habito és um caminho sem volta, e sigo em frente sem me perguntar porque. Um salto por 10 mil metros oceano adentro, perdida nas sujas profundezas do teu encanto. Não sei se devo declarar, são teus olhos nebulosos como a noite, traiçoeiros de se fazer perder por um beco qualquer. A insônia de te ver acordado me acende os nervos de inquietude, espero para ver se virás a beira da cama sussurrar pequenos delírios. Palavras que me amaciam sem reconfortar, cada espaço enfático da tua respiração me desespera. Um calor me atormenta a pele, nenhum pedaço de tempo ou lugar é aprazível, roupas e cabelos me torturam. Grito dentro de mim querendo te ver longe e te sentir por perto(que não descubras a minha indecisão). Eu é quem deveria não estar, mas é cedo demais para voltar atrás. Perguntar se o amanhã é distante de nós, oportunidade perfeita para silenciar, não restam opções para dialogar. És tu o meu maior pesadelo e desejo, segredo de confissão.


Texto: Elise Vasconcelos

terça-feira, 4 de março de 2014

Chão púrpura

John Lautermilch
Ninguém escuta além do próprio lamento
Nessa estrada ordinária não existe pedaço de chão
que não siga a mesma regra
Não é mérito suportar a solidão

Condenados a perpétua estagnação
O desejo é a barreira anti-locomoção
Frágil ideal de libertação
Humanamente asqueroso e carniceiro

A sujeira brota da mais íntima condenação
Dedos tóxicos apontando nas caras lambusadas pela derrota
Um gozo coletivo de orgasmos fingidos
Não sentem o mal cheiro do próprio umbigo
É devastador observar as cracas comendo os ossos enquanto as pessoas dormem
Eu bem tento acordar no meio tempo
Ação é reação pra quem consegue ver




Texto: Elise Vasconcelos

segunda-feira, 3 de março de 2014

Abismo

Robert Moses Joyce

A melancolia segue a anatomia da face,
Escoa um rio por entre as passagens do tempo,
Alimenta de musgo a pedra que se carrega no plexo
Dilacera a metódica e doentia fixação de acordar cedo.

Pausas entre suspiros, e a vontade de romper consentida
De nada vale a sanidade.
Estamos há um palmo do império invisível

Presos em abismos interiores
Deslocados dentro de um caixão aberto,
Contemplamos nosso próprio desterro.
Utopias seculares ainda nos perseguem.

Tudo é uma simplória repetição
E não resta coragem para renascer
A criação se perde no parto
Cicatriza na projeção


Texto: Elise Vasconcelos



Conheça outros trabalhos fantásticos do Robert Moses Joyce!

http://www.flickr.com/photos/orangebubblegum/with/6473949855/



Mofo


Audrey Kawasaki




Infindável chuva que inunda o corpo. Na tez branca cresciam ranhuras, raízes sem voz. Quantos lugares o veneno pode te levar. Quando o vento tilintou a brisa dentro de si, as nuvens se fecharam em um ballet sombrio e o efeito venenoso coroou as paredes do estômago . Novamente o cheiro da morte, doce no olhar. Amargura de boca e agridoce de sexo. Areia se espalhando debaixo do sol aguardente, ela vive nesse lugar, debaixo da própria unha, a pele. Onde ela aguarda. Tratado retalhado em uma carta, o desgosto na face dela. Detestável, de novo, ela cala. Arranha dentro da pele, a unha. Sangra o ventre de aquarela, arranha dentro da unha, as vísceras. O suor que queima derramado na lenha, ela apaga o mar nervoso de rosas pálidas. Corre de ansiedade, nunca é o suficiente, nunca. Na hora da revolta, uma reviravolta, pois não terá o suficiente, isso basta. Os olhos se fecham em pesar descompasso, metamorfoseando o corpo dela. É o que a faz flutuar, pecados. A navalha é o que desfita o casulo e faz o brilho da lua banhar a carne através das rasgaduras, uma luta travada nela. Desperta do sonho afogado, do peito molhado, ela reconhece, a margem não é próxima como parecia. Ela desata os punhos como se fugisse da própria sombra, apenas respira. O sopro é a chama que lhe percorre o limite do corpo em chamas, não restam espaços. Ela renasce na madrugada turva, cantos de pássaros precedem o fim do começo. Ela não vê, não fala, mas houve um engano. Apenas respira, ela grita, resiste, ainda vive.




Texto: Elise Vasconcelos

Este lado para baixo



Foto: Robert Moses Joyce




Não permitirei que me partas
Quero que me leias
E lances sobre mim as tuas injúrias
Antes o julgo feroz do que a incapacidade de sentir
O teu tato amargo

Sete léguas em noites escaldantes
Eu andei
E o caminho minha pele castigou
Por onde foste?
O silêncio esconde o mais perturbador desassossego 

A cálida respiração trepida no caos
Há falhas ao redor
Mas não consegue retornar
Quando se rompem as frestas 
É quando se descobre o  porquê
Devo mentir então

Relevante é o medo da solidão
E só as árvores criam raízes
Não precisas ficar
Mesmo que teu corpo em pedaços despeça 
Sabes que teu desejo é estar







Texto: Elise Vasconcelos