quinta-feira, 6 de março de 2014

Vitalícios



No vão dessa terra estranha
Eu vi dezenas de corpos
Enfileirados e organizados por tamanho e amargura
Ninguém sabia o motivo, ninguém barganhara desculpas
Desse maldito lugar só se conhece as ofensas e calúnias

A serenidade está naquela taça de vinho
Próximo ao cigarro e à estante de livros
Roda cabeça pensante, bate coração atuante
Escutem os pedestres, as putas e os vigilantes

De que vale ter poucas moedas?
Pra que chorar e acender velas?
A loucura já passou da meia noite
Os sinos desdobram, não avisam, nem descordam

Subverter é a regra
Dessa estrada de mão dupla
A liberdade é utopia
Pra quem só fala e não escuta





Texto: Elise Vasconcelos

Maio - 2013

Vênus

Dream wolf
Fonte: http://www.moondance.org/2001/winter01/poetry/dream-wolf.jpg


Se esperasse o aconchego dos teus lábios, eu não estaria. A falta de ti é ânsia que alimenta o coração bilateral, o amor que eu não reconheço por mim. Nas encruzilhadas da matéria que habito és um caminho sem volta, e sigo em frente sem me perguntar porque. Um salto por 10 mil metros oceano adentro, perdida nas sujas profundezas do teu encanto. Não sei se devo declarar, são teus olhos nebulosos como a noite, traiçoeiros de se fazer perder por um beco qualquer. A insônia de te ver acordado me acende os nervos de inquietude, espero para ver se virás a beira da cama sussurrar pequenos delírios. Palavras que me amaciam sem reconfortar, cada espaço enfático da tua respiração me desespera. Um calor me atormenta a pele, nenhum pedaço de tempo ou lugar é aprazível, roupas e cabelos me torturam. Grito dentro de mim querendo te ver longe e te sentir por perto(que não descubras a minha indecisão). Eu é quem deveria não estar, mas é cedo demais para voltar atrás. Perguntar se o amanhã é distante de nós, oportunidade perfeita para silenciar, não restam opções para dialogar. És tu o meu maior pesadelo e desejo, segredo de confissão.


Texto: Elise Vasconcelos

terça-feira, 4 de março de 2014

Chão púrpura

John Lautermilch
Ninguém escuta além do próprio lamento
Nessa estrada ordinária não existe pedaço de chão
que não siga a mesma regra
Não é mérito suportar a solidão

Condenados a perpétua estagnação
O desejo é a barreira anti-locomoção
Frágil ideal de libertação
Humanamente asqueroso e carniceiro

A sujeira brota da mais íntima condenação
Dedos tóxicos apontando nas caras lambusadas pela derrota
Um gozo coletivo de orgasmos fingidos
Não sentem o mal cheiro do próprio umbigo
É devastador observar as cracas comendo os ossos enquanto as pessoas dormem
Eu bem tento acordar no meio tempo
Ação é reação pra quem consegue ver




Texto: Elise Vasconcelos

segunda-feira, 3 de março de 2014

Abismo

Robert Moses Joyce

A melancolia segue a anatomia da face,
Escoa um rio por entre as passagens do tempo,
Alimenta de musgo a pedra que se carrega no plexo
Dilacera a metódica e doentia fixação de acordar cedo.

Pausas entre suspiros, e a vontade de romper consentida
De nada vale a sanidade.
Estamos há um palmo do império invisível

Presos em abismos interiores
Deslocados dentro de um caixão aberto,
Contemplamos nosso próprio desterro.
Utopias seculares ainda nos perseguem.

Tudo é uma simplória repetição
E não resta coragem para renascer
A criação se perde no parto
Cicatriza na projeção


Texto: Elise Vasconcelos



Conheça outros trabalhos fantásticos do Robert Moses Joyce!

http://www.flickr.com/photos/orangebubblegum/with/6473949855/



Mofo


Audrey Kawasaki




Infindável chuva que inunda o corpo. Na tez branca cresciam ranhuras, raízes sem voz. Quantos lugares o veneno pode te levar. Quando o vento tilintou a brisa dentro de si, as nuvens se fecharam em um ballet sombrio e o efeito venenoso coroou as paredes do estômago . Novamente o cheiro da morte, doce no olhar. Amargura de boca e agridoce de sexo. Areia se espalhando debaixo do sol aguardente, ela vive nesse lugar, debaixo da própria unha, a pele. Onde ela aguarda. Tratado retalhado em uma carta, o desgosto na face dela. Detestável, de novo, ela cala. Arranha dentro da pele, a unha. Sangra o ventre de aquarela, arranha dentro da unha, as vísceras. O suor que queima derramado na lenha, ela apaga o mar nervoso de rosas pálidas. Corre de ansiedade, nunca é o suficiente, nunca. Na hora da revolta, uma reviravolta, pois não terá o suficiente, isso basta. Os olhos se fecham em pesar descompasso, metamorfoseando o corpo dela. É o que a faz flutuar, pecados. A navalha é o que desfita o casulo e faz o brilho da lua banhar a carne através das rasgaduras, uma luta travada nela. Desperta do sonho afogado, do peito molhado, ela reconhece, a margem não é próxima como parecia. Ela desata os punhos como se fugisse da própria sombra, apenas respira. O sopro é a chama que lhe percorre o limite do corpo em chamas, não restam espaços. Ela renasce na madrugada turva, cantos de pássaros precedem o fim do começo. Ela não vê, não fala, mas houve um engano. Apenas respira, ela grita, resiste, ainda vive.




Texto: Elise Vasconcelos

Este lado para baixo



Foto: Robert Moses Joyce




Não permitirei que me partas
Quero que me leias
E lances sobre mim as tuas injúrias
Antes o julgo feroz do que a incapacidade de sentir
O teu tato amargo

Sete léguas em noites escaldantes
Eu andei
E o caminho minha pele castigou
Por onde foste?
O silêncio esconde o mais perturbador desassossego 

A cálida respiração trepida no caos
Há falhas ao redor
Mas não consegue retornar
Quando se rompem as frestas 
É quando se descobre o  porquê
Devo mentir então

Relevante é o medo da solidão
E só as árvores criam raízes
Não precisas ficar
Mesmo que teu corpo em pedaços despeça 
Sabes que teu desejo é estar







Texto: Elise Vasconcelos